Mar de histórias é a expressão que se usava em sânscrito para se referir ao universo das narrativas. Ao transitar por essas rotas imaginárias, é sempre bom
ter em mente a metáfora do mar. Ou seja, é preciso ter um caminho, é preciso manter o leme firme, mas também é necessária a consciência de que se navega
em águas que ora podem ser muito tranqüilas, ora podem se transformar em verdadeiros maremotos.
Esta é a aventura literária da qual fazem parte o mestre e seus alunos: é preciso coragem para trafegar por mundos imaginários; porém, as viagens serão
sempre cheias de descobertas.
PRIETO, 1999, p. 23.
Após 4 anos realizando sessões de leitura em escolas da rede pública no Estado de São Paulo, Espírito Santo e Mato Grosso, o programa LER É UMA VIAGEM dá mais um passo em direção à escola e à educação. Este material foi elaborado com a intenção de ampliar o diálogo entre as sessões de leitura e o trabalho do professor, dentro e fora da sala de aula, incrementando a troca de idéias entre leitores.
As histórias de Andersen, como diversas outras narrativas com as quais nos encontramos ao longo da vida, misturam-se em nosso imaginário formando um painel de destinos, palavras, imagens e símbolos que alicerçam as leituras que fazemos das coisas do mundo. Pano de fundo de nosso pensamento, esse repertório agrega elementos distintos e dispersos, dando forma ao nosso mundo de leitor, composto por elementos coletivos e outros individuais. Ao ler um conto, quantos outros são ativados, quantas memórias pessoais são iluminadas? É aí que mergulhamos no mar de histórias, citado no início deste texto, e nos colocamos a produzir significados ao novo (ou já conhecido) texto que se apresenta (ou se reapresenta): a cada nova leitura, nova atribuição de sentidos, novos dados para o mundo de leitor, novos contornos em nossa identidade.
Tanto alunos como professores são formados por narrativas, a começar pela história do nascimento de cada um até a última notícia ouvida no rádio ou capítulo lido no livro. Todos nós nascemos como os gêmeos da obra de Steinbeck, Caleb e Arion, imersos em uma imensa trama de narrativas. Certas narrativas exercem grande influência sobre o imaginário familiar, cultural, ou ambos, como se nos possuíssem. Elas condicionam o nosso modo de ver a vida, de tomar decisões, de resolver problemas afetivos e assim por diante. Trata-se de nosso currículo oculto, da bagagem que uma criança traz à escola, só detectável pela sensibilidade do professor que não considerar seu aluno um vaso oco a ser preenchido por conhecimentos predeterminados pelos currículos oficiais.
PRIETO, 1999, p.22.
Algumas histórias, porém, são contadas e recontadas há séculos e com tanta insistência que, apesar de terem alguns de seus elementos básicos mantidos, oferecem material literário para que os leitores das novas gerações permaneçam legitimando sua atualidade e produzindo sentidos também renovados.
Os contos de Andersen são bons exemplos de clássicos literários e, desde o século XIX, permanecem sendo lidos e relidos. Seria possível manter-lhes a forma e as palavras? E os sentidos atribuídos a eles? Quanto às primeiras, a tecnologia do livro e da imprensa tratou de perenizar: temos acesso, hoje, a escritos de próprio punho de Andersen, e poderíamos lê-lo no original, caso falássemos dinamarquês. Entretanto, as diversas traduções de sua obra já proporcionaram a entrada de novos elementos pelos poros dos diferentes idiomas, das diferentes culturas nas quais cada língua está mergulhada. Além disso, quantas não foram as adaptações destas mesmas histórias? E se, em relação ao aspecto material da obra, tantas são as brechas para sua recriação, o que dizer dos significados!
Os sentidos que os leitores de Andersen davam a seus contos em 1835 não podem ser resgatados, ainda mais depois de todos os matizes que já apontamos em relação ao significado de uma obra literária. Contudo, ao estudarmos um pouco a história da literatura, podemos localizar valores sociais, temáticas e idéias que ganham destaque nas obras produzidas em determinado período e lugar.
Na Europa do século XIX, o Romantismo estabelecia-se como tendência filosófica e artística. Apesar das variantes em relação aos diferentes países e escritores, é possível afirmar que o pensamento romântico se forma em oposição ao racionalismo iluminista e ao classicismo, fundamentando-se no idealismo – o primado do sujeito sobre o objeto, do pensamento sobre as coisas – e no espiritualismo, valorização da alma em relação à matéria.
O homem fica no horizonte de dois mundos, pela alma espiritual e livre participa do divino e aí reside sua grandeza, pelo corpo participa da natureza
material e aí reside sua desgraça. Sua alma se encontra encarcerada num corpo de barro, exilada num mundo, verdadeiro vale de lágrimas. “O homem, como
adverte Lamartine, é uma deus decaído que se lembra do céu.”
TRIGALI, 1994, p. 104.
Tal perspectiva desencadeia uma série de marcas facilmente encontradas na literatura da época. Resgatadas da tradição nórdica ou saídos de sua imaginação, as histórias de Andersen sugerem a valorização da obediência, da pureza, da modéstia, da paciência, do recato, da submissão frente aos desafios e dificuldades da vida; a resignação neste mundo para haver recompensa após a morte, no céu; o apreço pela natureza, vista como uma manifestação do infinito, uma obra divina; a formação de um espírito nacionalista que valorizava a sabedoria popular em detrimento do saber clássico, incentivando estudos folclóricos, como é o caso das pesquisas dos irmãos Grimm e do trabalho do próprio Andersen.
Essas são possíveis chaves para a leitura dos contos de fada produzidos nesse tempo e espaço, entretanto não são os únicos caminhos viáveis, nem os mais, digamos, verdadeiros. Considerar a mentalidade contextual de uma obra de arte para então multiplicar as possibilidades de leitura da mesma, a partir de outros pontos de vista, outros mundos de leitor, parece o procedimento mais enriquecedor e produtivo, especialmente para mestres e educadores. Afinal, a formação do estudante deve envolver, de um lado, a transmissão da herança cultural, historicamente construída, e de outro, o estímulo e capacitação para a criação do novo, para a produção criativa do presente.
Assim, o material que se segue pretende também apontar caminhos diversos para o trabalho com os textos literários com a intenção de que em cada grupo, em cada escola haja uma abordagem significativa para as pessoas envolvidas. No foco, sempre a perspectiva de ampliação de horizontes por meio da pesquisa, do estabelecimento de relações, da criação de significados, tarefas próprias do educador, capitão desse navio rumo ao conhecimento.
Bom trabalho e boa viagem a todos!