A aventura literária de Guimarães Rosa
Que nasci no ano de 1908, você já sabe. Você não deveria me pedir mais dados numéricos. Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras; para mim são minha maior aventura"1.
Guimarães Rosa, nesse trecho da entrevista concedida ao alemão Günter Lorenz, resume o que em geral deveríamos observar nas biografias dos escritores: a escrita de seus livros! A partir dessa idéia, resumiremos apenas alguns momentos da vida do escritor importantes para a contextualização de sua obra."Cordisburgo era pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais. Só quase lugar, mas tão de repente bonito"2.
Seu pai, Florduardo ("seu Fulô"), tinha um pequeno comércio perto da estação de trem e era lá que Guimarães Rosa passava horas, escondidinho, brincando de pensar.
Essa paixão de infância em aprender outras línguas o acompanha em sua vida adulta:
"amo a língua, realmente a amo como se ama uma pessoa"2.
É por causa desse amor que o escritor estuda constantemente outros idiomas. E eles são tantos que impressiona:
"falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração"3.
Percebe-se que para o escritor é essencial a observação de outras línguas para o trabalho de reflexão sobre nosso próprio idioma, o que explica o mecanismo de desestabilização da linguagem operada em suas obras."no fundo, enquanto vou escrevendo, eu traduzo, extraio de muitos outros idiomas. Disso resultam meus livros, escritos em um idioma próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros"4.
A viagem de 1945 pelo sertão de Minas Gerais parece ter sido determinante para a conclusão de Sagarana, pois este era escrito desde 1938, quando o escritor concorreu a um concurso com tal conjunto de contos, classificado em segundo lugar:a arte de Rosa é terrivelmente difícil. Esse antimodernista repele o improviso. Com imenso esfôrço escolhe palavras simples e nos dá impressão de vida numa nesga de catinga, num gesto de caboclo, numa conversa cheia de matutos. O seu diálogo é rebuscadamente natural6.
Além disso, faz uma previsão literária assustadora ao afirmar que Sagarana era o primeiro passo para um dos maiores romances a ser escrito, mas que isso ocorreria apenas dali a uns dez anos. E assim aconteceu.
Em 1956, Grande Sertão: Veredas torna-se uma linha divisória na literatura brasileira ao trazer uma proposta de releitura de grandes problemas literários e filosóficos. Além disso, essa obra é a consagração do trabalho diferenciado em relação à linguagem: para Guimarães Rosa é preciso tirar o pó das palavras, ou seja, desautomatizar a linguagem para criar uma ponte com o leitor capaz de fazê-lo pensar sobre a língua e sobre o mundo que o cerca - daí que o autor relembra palavras esquecidas pelo uso cotidiano, cria novas palavras, reúne numa frase palavras que provavelmente não se encontrariam.
Os livros que seguem a esse romance (Primeiras Estórias, Tutaméia) surpreendem pela mudança: são todos dedicados a estórias muito curtas. Antes de morrer o escritor deixa quase prontos os livros Ave, Palavra e Estas Estórias, os quais acabam por ter publicação póstuma.
O único livro com biografia mais detida de Guimarães Rosa é "João Guimarães Rosa: Homem plural escritor singular", elaborado por Edna Nascimento e Lenira Covizzi.
Na revista Cadernos de Literatura Brasileira dedicada ao escritor Guimarães Rosa (número 20), do Instituto Moreira Sales, também há uma boa biografia feita por Ana Luiza Martins Costa.
A internet também auxilia na descrição dos principais acontecimentos em torno da literatura rosiana. Indicamos os sites:
http://www.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/guimaraesrosa/index.htm
http://www.vidaslusofonas.pt/joao_guimaraes_rosa.htm
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1 Lorez, Günter. "Diálogo com Guimarães Rosa". In: Rosa, João Guimarães. Ficção completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 1. p.27-62.
2 Discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, disponível no site http://www.academia.org.br/abl
2 Idem.
3 Idem.
4 Idem.
5 Carta a João Condé, disponível em http://ciberduvidas.com/antologia.php?rid=742
6 Ramos, G. "Conversa de Bastidores". In: In: Rosa, João Guimarães. Ficção completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 1.